Ação será protocolada pelo Instituto de Advocacia Racial e Ambiental contra governo federal e a presidenta Dilma Rousseff por não fiscalizar e exigir a criação de disciplinas sobre o tema
Após completar uma década de aprovação, a Lei nº 10.639
não conseguiu garantir que o ensino de história e cultura
afro-brasileira faça parte dos currículos da educação básica e da
formação dos professores do País. O descumprimento das exigências da
lei, agora, se tornará tema de ação a ser julgada pelo Supremo Tribunal
Federal (STF).
O Instituto de Advocacia Racial e Ambiental (Iara) vai
protocolar um mandado de segurança no tribunal na manhã desta
sexta-feira. Na ação, os representantes do instituto pedem suspensão da
abertura de novos cursos de graduação e licenciatura destinados a formar
profissionais em educação nas instituições públicas; suspensão de
repasse de recursos financeiros reservados aos programas de formação
para esse tema e mudanças nos critérios de avaliação dos cursos.
Entre os muitos alvos da ação, estão a presidenta Dilma
Rousseff; o ministro, o secretário-executivo e o de Regulação e
Supervisão da Educação Superior do Ministério da Educação; o presidente
do Conselho Nacional de Educação (CNE); o presidente do Instituto
Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep); o
presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes); o presidente do Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Educação (FNDE); o ministro da Controladoria-Geral da União, o
procurador federal dos Direitos do Cidadão; reitores de 44 universidades
federais e o advogado-Geral da União.
“Estamos cobrando judicialmente tudo o que eles não
fizeram antes e encaminhamos a ação para o Supremo Tribunal Federal por
conta de um ato omissivo da presidenta da República. Todo o trabalho de
pesquisa feito pelo Iara mostra que a implementação da lei é um faz de
conta”, afirma Humberto Adami, advogado que representa o instituto.
O advogado explica que o Iara fez um levantamento sobre a
situação da aplicação da lei nas escolas e universidades. Há projetos
isolados sobre o ensino da história e cultura africanas e
afro-brasileiras nas escolas; as universidades não têm disciplinas
específicas para tratar o tema na formação dos professores – quando há,
não é obrigatória – e as verbas destinadas ao financiamento dos programas
da área são pouco utilizadas.
Pedidos “esquecidos”
Antes de decidir entrar com a ação no STF, o instituto
pediu providências administrativas ao Ministério da Educação, em
novembro do ano passado, “propondo representação por descumprimento da
obrigatoriedade do estudo da história da África e dos afro-brasileiros,
em relação aos órgãos responsáveis pela formação inicial, continuada,
controle, fiscalização e avaliação das Políticas Públicas na estrutura
da Educação”.
Sem resposta após 60 dias, o mesmo pedido foi feito à
presidenta Dilma Rousseff. Adami diz que, baseado no descumprimento da
lei, os autores da ação pediam o mesmo que consta agora no processo
judicial: suspensão da abertura de novos cursos de graduação que formam
professores; reavaliação dos cursos para diminuir os conceitos de
qualidade das instituições que não oferecem a disciplina; suspensão de
repasse dos recursos financeiros aos programas de formação e punir os
responsáveis por não fiscalizar o cumprimento da lei.
“Com a omissão da presidenta, vamos propor essa ação.
Houve muita verba pública destinada à implementação dessa lei. Foram
realizados cursinhos, seminários, festas. Mas, de fato, não se modificou
a resistência ao conhecimento da cultura afro-brasileira
e do estudo da história dos africanos no Brasil”, afirma ele.
Segundo Adami, a lei provocou mudanças nas escolas – mesmo que não tão numerosas
– mas não nas universidades. “É difícil cobrar da escola, que muitas
vezes consegue fazer medidas pontuais e que dependem do esforço de
muitas pessoas, se as universidades que formam estão do mesmo jeito”,
avalia.
Não existe prazo para que os ministros do STF julguem a
ação. Mas, para Adami, discutir o tema na Suprema Corte será de grande
valia. Na opinião do advogado, uma geração de jovens está sendo
prejudicada com a falta do conteúdo debatida nas salas de aulas da
educação básica e das universidades.
Texto retirado do site Último Segundo, no dia 15/02/2013.
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